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WRITINGS
Read here my writings.
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LITTLE STORIES

Some of my stories selected. Published originally in electronic fanzine apdaosvaldo.
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Only in portuguese for now. Sorry!
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Tocador de tuba

Leonardo Davinte além de escritor era um exímio catador de recicláveis. Desenvolveu mais de vinte aparatos diferentes para recolher os receptáculos de alumínio que diariamente peregrinava em sua busca. A mais importante desde então foi um arpão confeccionado em madeira de construção com um cilindro de metal ligeiramente vincado em uma das extremidades e uma corda azul trançada em material sintético na outra. A mira certeira vazava bem no centro do objeto retorcido, o braço puxando para traz com um só movimento depositava-a na construção criada especialmente para conter tais objetos. Enquanto puxava tal construção adaptada de rodas dotadas de borracha de seringueira, Leonardo pensava em bananas. Na lateral dava para ler escrito em carvão vegetal numa placa de papel pardo cartonado: “A fé é o vício da pragmática”. Dentro do carro jazia Sultão, um fiel ajudante que tratava de fazer a separação dos objetos, com o focinho, entre papeis, metais, vidros e borracha. Sultão que já detinha o recorde de idade entre sua numerosa família, gozava de uma aposentadoria agora, mas não sem reclamar durante todo o trajeto rosnando algo a respeito de sua pregressa estada em um circo onde separava bolas e outros aparatos em um número de vinte minutos no Grande Circo do Mestre Dando. Ao final da jornada, Leonardo lavava os pratos da janta e preparava-se para deitar. Ao apagar a luz, Leonardo começava a escrever. |
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Foda-se

Leandro perdeu as pernas. Não gostava de usar essa palavra, mas quando perguntavam, era o que respondia. Não gostava porque dava a impressão que elas deviam estar por ai, em algum lugar, numa esquina, quem sabe na boca de um cachorro. Definitivamente não gostava.
Outra coisa que Leandro não gostava era de pepinos, na verdade nunca havia comido nenhum deles, só comera chuchus, o qual não gostou e como achava chuchus iguais a pepinos, não gostava dos tais pepinos.
No final de janeiro ele viu na tevê que algumas pessoas que perdiam membros ainda sentiam coceiras e dores na parte amputada. Leandro nunca sentira nem coceiras, nem dores, e ficava intrigado com isso.
Passava os dias se concentrando para sentir algo.
Ao fim de quatrocentos e quarenta e três dias, enquanto o refrigerador descongelava, descobriu a coisa mais importante da vida para ele: o inferno. O inferno não era um lugar, nem um momento, mas simplesmente o nada. O inferno era o que não existia e que ainda assim nos fazia falta, e muita. Dito isso ao seu cachorro Laurus, riu sem parar, gargalhando, como se descobri-se o sentido da vida, e é claro que para ele descobrira. Ainda estava soluçando de tanto rir quando a bala atravessou sua cabeça. Perdera a cabeça, mesmo não gostando da palavra. |
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Para Lu.

Morreu algo em mim, não sabia ainda o que era, nem quando foi, mas sentia. Sempre se sente esse tipo de coisa, mesmo que não tenha explicação, se sente. Chorei, sentada no chão do quarto, chorei. Segurando-me na cortina do box sentada ao chão frio e molhado, chorei. Não sabia porque, nem quando comecei, mas chorei. Não sabia, esse tipo de coisa não tem explicação.
E lá no box, com a água a me tocar, sem minha permissão, sem meu consentimento, ela escorria, descia e entrava no meu corpo, me tocando impiedosa, lasciva. Mostrando minha fragilidade que tanto tentava esconder na mascará pesada de pó compacto e no batom claro em lábios vermelhos e ávidos.
Lembrava garotos a me tocar no muro de trás da escola, sem minha permissão verbal, só meu silêncio consentia, permitia.
Como a água a escorrer, vinham um por vez e se esfregavam, me empurrando contra o muro, sem se preocupar se eu gostava daquilo, ou não. Eu, calada, dizia sim.
Esfregavam-se, provavam do meu corpo, do pouco que cobiçavam, e iam embora, sem olhar pra trás: amanhã tem mais - pensavam eles, pensava eu.
E na volta da escola, aqueles velhos sujos e nojentos a se esfregarem em meu corpo, como os garotos da escola. Aquele cheiro de suor, os corpos pesados, o ônibus lotado, sem se preocupar se eu gostava daquilo, ou não. Eu, calada, dizia não.
É como uma coisa ruim que recheia o estômago e precisa ser expulsa. Vomitei medos, angustias e traumas que escorriam pelo ralo do banheiro fazendo voltas e pedindo o meu perdão, pelo medo de não poderem existir mais.
Minha boca minada por um gosto forte de melancolia, lembrava leite talhado, ferro enferrujado, coração partido.
Levantei do box e saí para o quarto, pingando amarguras e ressentimentos que escorriam de meu corpo, viravam lamentos, e subiam as paredes escondendo-se nos cantos escuros do teto, como que temerosos pela sua vida, que agora se esvaía.
Troquei de roupa, a outra que tinha listras de desejos reprimidos não servia mais. Sentei na sala pra ler algo, mas as revistas e jornais só noticiavam fragilidade e medo, por isso não li.
Tomei um chá amargo de vergonha e sai de casa vendo um por-do-sol colorido de auto-estima, respirei uma noite de promessas, dancei com as novidades e adormeci nos braços de um estranho com meu sorriso de deixem-me-em-paz. |
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Long Silver

Carlos, nunca quis ser carroceiro,
Long Silver sim, queria ser carroça.
Carlos passava a mão no lombo do animal
balbuciando
- Ê, ê, ê...
O cavalo relinchava e batia as patas,
entendia o que ele queria.
Carlos profetizava...
- É rei...
Long Silver de olhar triste mascava...
No dia da corrida, Carlos, usou dinheiro
alheio para apostar, Long Silver usava
a melhor cela.
Todos estavam prontos pra largada menos
Long Silver, que olhava para o outro lado da
cerca, pensava carroças.
Um tiro de alerta, as cercas caindo deram
início ao espetáculo, Long Silver saiu na
frente, na primeira volta já estava muito
distante dos outros corredores... Carlos
brilhava os olhos, babava e gritava - Corre
mula!
Long Silver parou de repente do meio da
pista e colocou-se a empinar tentando
derrubar o jóquei, não demorou muito,
e Long Silver pulou a cerca, saiu em
disparada pelo Cristal... subiu a Cruzeiro,
virou Mortadela...
Carlos virou Presunto. |
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Fujimori vendia pasteis na feira

Ele não tinha as mãos. As perdera no trabalho. Não importa que trabalho, isso não interessa agora, nem tão pouco como perdera. Bem, Maria amava ele. Muito, mesmo. Até ter que suportar dar banho, comida e por pra dormir, mesmo pelo fato dele não ser uma criança, ou um doente. Ele era tísico, fraco, e quase não conversava mais. Maria achou que era por ela não conseguir fazer ele se abrir, confessar seus medos, receios.
Certa vez, quando criança, ouviu adultos conversando e dizendo que a chave para alguém falar a verdade era pegar na sua mão e olhar nos olhos. Maria chorava. Por dentro é claro, ele não poderia ver, ficaria mais triste ainda, pensava ela.
Na hora da janta, era sempre igual. Ela dava pra ele a comida, enquanto ficava fitando o vazio a sua frente imóvel, mascando, não mastigando, pois parecia vacas se alimentando, pensava, elas baixam a cabeça e arrancam o capim e ficam a ruminar, fitando o vazio. Maria angustiada pôs sua mão onde deveria ficar as dele, fitando-o. Naquela noite conversaram.
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Alberto Pasqualini era frentista

Doía os dentes. Todos eles, ou quem sabe só um ou outro lá do fundo, onde seus medos e suas descrenças não conseguiam alcançar e limpar os restos de mortos que insistiam como que por maldição ficarem trancados entre os molares.
Doía os dentes. Nem todos eles, pois não sabia quais doíam, mas tinha essa impressão, pois a dor se distribuía por toda a boca, tendo a impressão de que a morte era mais piedosa.
Doía os dentes. Já não interessava quais, foi para a garagem e pegou um alicate, velho enferrujado, graxado. foi para a cozinha, bebeu um copo d’água. foi para o espelho e se olhou, abriu a boca, muito, muito abriu-a, enfiou o alicate e puxou um dente lá do fundo, não fez a mínima cara de dor. Não sei se doeu, não demonstrava, sangue era o que não saia. Saia era uma gosta verde e pegajosa, podre, nojenta. Não sentiu repulsa, nem nojo pois aquilo era ele. dele. Pegou rolhas e colocou no lugar dos dentes, hoje ao rir lembra-me um garrafão de vinho sendo aberto.
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Churastei, Churaigou

Sempre tive dores malditas, malditas dores de barriga. Daquelas de cagar perna abaixo, mesmo não querendo cagar. É só a dor mesmo, mas cagaria se isso fizesse passar. E não sei porque, descobri em certo ponto de minha vida que lembrava de Kátia ao sentir as dores. Parecia que me fazia sentir menos dor, ou pelo menos me fazia cagar. Pensava em Cátia com "k". Não com "c", sempre achei que seu nome fosse com "k", quando chamava por ela, via o Kátia sair pela minha boca, fazendo ondinhas e entrando na orelha dela. O "k" de Cátia parecia ser mais forte, mas encorpado, o suficiente pra se fazer força ao falar. Aí me lembrava das dores de barriga. Vem da infância. Minha mãe me entupindo de óleo de rícino e azeites, coca-cola, chás e reza braba. Mas só Cátia com "k" segurando a minha mão, enquanto eu cagava, é que me fazia sentir melhor. Cagava de chorar, e depois me abraçava exausto em Kátia.
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Caiu o meu cu.

Eu estava dentro do trem rumo a Canoas, quando senti um vazio de repente (nordestinos) e aquilo rolou da minha bunda, saiu pela minha perna e foi se alojar no borda da minha meia de elástico vencido. Nos altos da Borges ele resolveu cair finalmente e saiu rolando ladeira abaixo, eu correndo, meu cu rolando. Pega meu cu! Pega meu cu! Gritava eu, desesperado quando ele resolveu fazer uma curva e entrar na Riachuelo em direção a andradas, tô fudido pensei eu, mas o cu era esperto e foi desviando a tudo e todos e enquanto eu esbarrava no povo. Capa de colchão, capa de colchão... E o cu rolando pela rua da praia e saindo de cantinho pra Casa de Cultura, cu cult, parou pra ver um filme do Godard. Esperei no lado de fora, não sou estudante, e sem cu, sem meia disse a mulher da bilheteria. faca&bala disse eu meio indignado, fui tomar uns chopes pra esperar. Quando ele resolveu aparecer, com uma cara de intelectual fumando um cachimbo inglês e cultivando um cavanhaque contrastando com seu suéter gola rolêt. Dizia ele que o tal do Godard reinventou o cinema e a sociedade contemporânea nada tem de contemporâneo sob tal ótica perturbada pelo senso teocrático imposto de maioria, vai tomar disse eu. Ele falou algo sobre a libertação do Tibete e sobre o Bob Erzin, me ofereceu umas joaninhas com lsd e subiu o alto da bronze cantando "somewhere over the raimbow".
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Pigarreiava em todos os lados.

Eram escuros e esperssos, esparsos, espaços.
Me fazia uma ânsia de vomitar o pé, de cachorro comendo capim, enquanto gritava e saltavam os olhos...
Foi ai que descobri que era alérgico aos pigarreios, ou na verdade, eles eram para mim meramente indigestos.
Deve ser pelo tamanho e aquele formato oblongo e dissimulado que me trancava a traquéia e não deixava respirar, tinha que colocar a mão inteira lá dentro e empurrar. As vezes até as duas mãos, ficando só os cotovelos de fora.
Uma vez quase sumi quando tentava empurrar um pigarreio da minha garganta, coloquei os dois braços, o fui entrando pela minha traquéia quando me olhei no espelho estava aos avesso, muito engraçado.
Sai na rua para ver a reação das pessoas, mas acabei mal, juntava muita poeira, cabelos e outros bracelos.
Voltei pra casa e me vomitei.
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Barcos

Ei! Psiu! Menininha...!
A menininha de cabelos ruivos com medo se aproxima da grade.
- Não precisa ter medo menininha, eu não vou te machucar.
Menos assustada ela para na frente do homem ajoelhado do outro lado do portão.
- Faz um barco pra mim?
- o homem estendendo um pedaço de papel.
- Chapéu eu sei fazer, barco não! Dizem que é só continuar, mais nunca deu...
Ela pega o papel com cuidado e com maior atenção começa a dobrar mostrando como fazer.
O homem olha admirado, bate palmas, dá gargalhadas, passa a mão no cabelo, e sorri muito, sorri...
A menininha sem pronunciar uma palavra estende a mão com um pequeno barquinho branco de papel.
O louco pega e fica a admirar, passa a mão, dá gargalhadas...
A chuva começa a aumentar a menininha dispara em direção a sua casa...
o louco sai remando de barco.
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De repente as pessoas começaram a flutuar

no inicio era meio baixinho tipo uns dez centímetros, mas aos poucos eram metros. Cada dia mais gente estava flutuando e mais alto. Menos eu. Acho que senti medo daquilo, tentei até perguntar porque eles estavam flutuando, mas de lá ninguém mais me ouvia. Eles começaram a flutuar cada vez mais alto até sumirem no céu. Eram velhinhas e aposentados no início, depois foram os "panquis" e os rastas, até que tinham executivos flutuando com seus celulares na orelha, daí já era todo o tipo de gente. Era certo, todo dia de manhã, as pessoas flutuavam. Comecei a acordar cedo para sair na rua e ver a Osvaldo cheia de gente flutuando. A vezes tinha uns que batiam nas palmeiras. Até que o inverno chegou, e começou a ventar. Sempre gostei de andar de contra o vento, me dá uma sensação boa. Eu fico caminhando lento, com mais dificuldade. Gosto dos meus cabelos balançando...
...parece que eu tô andando de moto, mas flutuar acho que não ia gostar, achei meio esquisito, fazer o quê lá? Até cachorro já vi flutuar. Parou bem em cima da minha cabeça, olhei e fiquei com medo dele mijar em mim, acabei desviando uma rua. Cada vez menos gente nas ruas, comecei a me sentir sozinho. Até que não tinha mais ninguém. Só gente flutuando, flutuando e sumindo no céu.
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Alex e os cogumelos

De quantos mundos é feito um universo?
Porque esse mundo não está neste dito universo.
Será pelas cores que ninguém pode ver, a não ser o Cobrador?
Ou pelos ramos que saem da terra e entram, e assim de maneiras sucessivas tecendo esse teto onde eu piso...
Chiiiiiii.... para de pensar tão alto, eu estou te escutando pensar!
Pare você de me atormentar, não vês que estou ouvindo os cogumelos crescerem?
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O pão da Nona

Ah como era bom o pão da Nona Foi o melhor que já comi, e olha que já comi muitos pães Vinha gente de muito longe pra comer o pão da Nona, Porém a Nona fedia muito, tinha sujeira debaixo das unhas Mas como era bom o pão da Nona. A Nona cravava as unhas pontiagudas na massa deixando vários pontos pretos que ela dizia ser erva-doce A Nona ria e se babava Como era bom o pão da Nona
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Tanaka

Sêo Tanaka não gostava de flores.
Vai ver é por ser dono da floricultura - se explicava.
- Flores tem cheiro de morte! Prefiro as de plástico.
Chegava a atribuir propriedades curativas para as flores, afim de zombá-las.
- Pedra nos rins? Leva cravo vermelho!
Em sua casa acima da loja, não haviam flores, nem mesmo de plástico.
Um dia acharam Sêo Tanaka morto, vestido de espanhola com uma rosa vermelha na boca.
No dia do enterro encheram o caixão de flores.
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Genival era cobrador da Vicasa.

Tinha um problema nos dentes, eles eram muito pronunciados, literalmente pra fora.
Na escola primária ele era o "Cangica".
Os passageiros adoravam Genival, pois estava sempre sorrindo, diziam ter bom humor.
Ele pegava o troco e, com os olhos puxados, balançava a cabeça afirmativamente.
- Grande sujeito - diziam os passageiros, sempre alegre.
Mas na verdade Genival era muito triste, e ainda assim tinha um sorriso no rosto, só os olhos estavam baixos, parados...
Genival era triste por não poder ser triste, estava fadado a sempre sorrir mesmo na merda.
Um dia se atirou na frente do ônibus que cobrava, dizem que morreu se rindo.
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